Os Últimos dias de Michael Jackson. O corpo de Michael Jackson está sobre uma maca no necrotério, no centro de Los Angeles. Ele está vestido com calça preta brilhante, um avental hospitalar fino e nada mais. Os pés estão descalços e o braço esquerdo cheio de marcas de agulha. O tórax pálido e estreito está coberto de hematomas - evidências de esforços médicos nas últimas horas para salvar sua vida. Médicos e seguranças entram e saem da pequena sala onde está a maca, ansiosos por dar uma espiada no corpo de Jackson. Tudo havia começado na manhã daquela quinta-feira, quando o médico que morava com o cantor havia tentado freneticamente reanimá-lo. Quando os paramédicos chegaram, respondendo a uma ligação desesperada para o serviço de emergência 911 às 12h21, queriam pronunciar sua morte no ato. Retirado da Revista Rolling Stones Amanhã , o final do especial com as cenas finais de sua vida.
Mas Michael Jackson não poderia estar morto. Seu corpo foi carregado para uma ambulância e levado ao UCLA Medical Center, onde uma equipe de médicos trabalhou por mais de uma hora, aplicando um desfibrilador no peito de Jackson, todos esperando que pudessem evitar que um dos maiores artistas da música terminasse naquele necrotério. O rosto de Jackson, que ele reconstruiu tão dolorosamente e escondeu do público por décadas, agora está à mostra, sem disfarce, sob as luzes fortes do necrotério. A prótese que normalmente acoplava a seu nariz danificado não estava ali, o que revelava pedaços de cartilagem cercando um pequeno buraco escuro. Mas, para quem passava pela sala, Michael finalmente estava descansando. "Vendo-o deitado ali", lembra uma testemunha, "ele parecia estar em paz".
Ainda era um dia antes da autópsia, quando patologistas o abririam para tentar entender por que um homem magro de 50 anos - que havia dançado por horas na noite anterior - morreu tão repentinamente. No entanto, enquanto Jackson estava no necrotério na tarde de 25 de junho, detetives já haviam entrado na mansão alugada pelo cantor em Bel-Air, recolhendo uma quantidade enorme de medicamentos que ele mantinha à mão. Mais assustadores eram os diversos relatos de que os dois sacos grandes de remédios que os investigadores levaram continham frascos de Diprivan, um anestésico potente utilizado em pacientes antes de cirurgias com anestesia geral. Diz-se que Jackson usava o Diprivan há anos para conseguir dormir, e a polícia de L os Angeles logo começou a investigar se sua morte deveria ser considerada um homicídio, deixando claro que queria questionar o médico do cantor, Conrad Murray. Murray havia exigido US$ 1 milhão por mês para trabalhar para Jackson - e desapareceu depois que seu cliente foi pronunciado morto na sala de emergência do UCLA.
Horas depois da morte de Michael, LaToya Jackson supostamente foi à casa do irmão, procurando ansiosamente por malas de dinheiro que sabia que ele mantinha ali e, em questão de dias, a mãe deles foi aos tribunais para lutar pelo controle do patrimônio de Jackson e pela custódia de seus três filhos. As crianças haviam seguido Jackson até o hospital em um Escalade azul e quem lhes contou que seu pai havia morrido foi o empresário de Michael, Frank DiLeo, que quase desmaiou quando uma enfermeira lhe deu a notícia. Este era o Michael Jackson que o mundo conhecia e ridicularizava: a família maluca, as plásticas malfeitas, os dois divórcios, as acusações de abuso contra menores, os problemas financeiros que o deixaram com uma dívida estimada em US$ 500 milhões.
Mas Michael tinha uma opinião diferente. Em seus últimos dias, não apenas sonhava comum retorno, mas também trabalhou o máximo que conseguia para realizar isso, talvez tanto quanto sempre fizera. Compôs novas músicas, ensaiou por horas a fio para aperfeiçoar os shows que pagariam suas dívidas e marcariam seu retorno ao topo do panteão e planejou cada detalhe de sua turnê de retorno - um espetáculo imenso que já havia custado pelo menos US$ 25 milhões só em pré-produção, Jackson deu à sua turnê um nome que já dizia tudo: This Is It. Jackson sabia o que as pessoas pensavam dele e as faria mudar de percepção, como havia feito várias vezes. Nos últimos meses de sua vida, Jackson não pensava em nada além da turnê, e as pessoas que amava e em quem confiava tinham certeza de que este era o momento pelo qual esperava.
Na noite antes de sua morte, Jackson passou por seis horas de prova de roupas para seu show no Staples Center, em Los Angeles. Mais de uma dezena de pessoas presenciou o ensaio final - de seu promotor ao coreógrafo e músicos - e todos concordam com uma coisa: Jackson estava melhor do que nunca. Ele era puro pop, da mesma forma que em seus dias de glória, cantando e dançando melhor que os jovens profissionais que o cercavam. "Ele era tão brilhante no palco", lembra o diretor da turnê, Kenny Ortega. "Eu ficava arrepiado." Ken Ehrlich, que produziu os prêmios Grammy por três décadas, estava sentado na plateia, embasbacado. "Falei para alguém: 'Isso é impressionante!' Por muitos anos vi Chris Brown, Justin Timberlake, Backstreet Boys e o En Vogue imitarem o Michael Jackson - e ali estávamos nós, muitos anos depois, e ele estava para voltar. Literalmente me deu arrepios, os pelos na nuca levantaram. Você espera por momentos como aquele." This Is It deveria ter sido o maior retorno de todos os tempos. "Frank", falou Jackson a seu empresário, "temos que fazer o maior show da Terra". A tragédia é que ele quase conseguiu.
Um dia, quase no fim de fevereiro, Kenny Ortega atendeu ao telefone de seu escritório em casa em Sherman Oaks, Califórnia, e ouviu uma voz suave, familiar em falsete no outro lado da linha. "Kenny, é o Michael." Imediatamente, Ortega ouviu algo na voz de Jackson que estava faltando há muito tempo: empolgação. Os dois ficaram amigos no início dos anos 90, quando Ortega coreografou a turnê Dangerous, e trabalharam juntos novamente na turnê HIStory. Após sua liberação das acusações de abuso de menores, em 2005, Jackson havia praticamente parado de contatar seus amigos na indústria musical, mas agora, enquanto Jackson descrevia a turnê de retorno que estava montando, Ortega ouviu um foco no astro que não estava ali há anos. Michael soava preciso e claro, enquanto contava a Ortega que queria que aquele fosse o show mais espetacular da história da música. "É isso", disse Jackson, ecoando o que acabaria se tornando o nome da turnê.
No verão anterior, Michael parecia um homem acabado. Fotógrafos o haviam flagrado sendo empurrado sob o sol escaldante de Las Vegas em uma cadeira de rodas, usando máscara cirúrgica e pijama. Era difícil não ver aquelas fotos e se perguntar o que havia acontecido ao homem que dançava vestindo meias e luvas brilhantes como se controlasse a gravidade. Naqueles dias, ele parecia uma criatura de outro mundo, não regido pela lógica e vulnerável a tudo. Jackson havia se mudado para Vegas depois de voltar do Oriente Médio, em 2006, e foi morar com os filhos em uma mansão de dez quartos a oeste da Strip, onde fica boa parte dos grandes hotéis e cassinos. Jack Wishna, um executivo inescrupuloso da indústria de jogos que tinha feito lobby para Donald Trump abrir um resort na cidade, estava tentando ajudar Michael a realizar uma série de shows em Vegas que poderiam pagar suas cada vez maiores dívidas, mas o negócio não ia bem. Wishna depois contou à CNN que o cantor parecia "drogado" e "incoerente" e frequentemente estava tão fraco que precisava de uma cadeira de rodas para se locomover. Jackson e os filhos raramente saíam da mansão, exceto para fazer compras. Quando saíam, as crianças usavam máscaras de tecido e penas para se esconderem dos fotógrafos, com o pai ao lado em seus uniformes esquisitos de um exército imaginário, cheio de dragonas e tarjas no braço. Os shows em Vegas acabaram sendo cancelados devido à condição de Jackson.
Naquele ponto, Jackson estava em uma espiral decadente havia anos. O ponto de ruptura aconteceu enquanto voltava para casa em uma carreata em 13 de junho de 2005, após ser inocentado das dez acusações de abuso infantil e outras. O clima no carro estava pesado. Ao chegar ao rancho Neverland, Jackson subiu as escadas e olhou para Dick Gregory, um comediante e amigo da família que o conhecia desde que havia estrelado em O Mágico Inesquecível. Jackson agarrou Gregory e o abraçou com força. "Não me abandone", implorou. "Estão tentando me matar." Gregory teve a sensação de que Jackson se referia ao mundo inteiro. Michael parecia paranóico e desidratado. "Você comeu?", perguntou Gregory, sabendo que Jackson frequentemente passava dias sem se alimentar. "Não posso comer", respondeu Jackson. "Estão tentando me envenenar." "Faça-me um favor", disse Gregory. "Vá embora. Todas essas pessoas te enganaram." Embora pareça melodramático, Gregory poderia estar certo. Jackson vivia há muito tempo em um mundo alternativo de puxa-sacos que pareciam ir e vir, ludibriando o cantor ou o acusando de ludibriá-los. Nem mesmo sua família parecia conseguir passar por esse mundo de oportunismo. Na época de seu julgamento por abuso, esse círculo estava cada vez mais obscuro. Havia Marc Schaffel, um ex-produtor de filmes pornô gays que era conselheiro de Jackson há anos, e Al Malnik, advogado que, diz-se, já representou o mafioso Meyer Lansky. E houve seus seguranças da organização Nação do Islã, que supostamente brigaram com os irmãos Jackson, que haviam demonstrado preocupação com a influência da Nação sobre a vida de Michael.
Jackson sabia que tinha de ir embora - mas seu salvador escolhido só tornou as coisas mais estranhas. Em junho, para ajudá-lo a resolver suas finanças e fugir do foco da mídia, Jackson recorreu a um homem que nunca havia encontrado: o xeique Abdullah bin Hamad bin Isa Al-Khalifa, príncipe do Bahrein. O xeique havia se tornado amigo de Jermaine, irmão de Michael, que havia se convertido ao islamismo e vivido por quatro meses no Bahrein. Abdullah ajudou a pagar US$ 2,2 milhões em honorários jurídicos para Michael e, no final do mês, Jackson - com os três filhos e a equipe - foi morar com o príncipe. Houve boatos de shows particulares para o xeique. Abdullah, que tinha suas próprias aspirações musicais, mais tarde contou que ele e Michael estavam trabalhando juntos em um disco. Mesmo naqueles dias, Jackson sonhava com um retorno. "Uma turnê sempre estava nos planos", diz Miko Brando, filho do legendário ator Marlon Brando, que conversou com Michael pelo telefone durante a estada do cantor no Bahrein. "Era só para ele se preparar, voltar ao trabalho e ser produtivo. Michael é perfeccionista demais para ficar sentado sem fazer nada. Sempre estava criando música, criando ideias, sabia como juntar tudo, o que funcionava, o que o público queria." No entanto, como sempre, as coisas pareceram dar errado rapidamente. Depois que Jackson deixou o Bahrein em 2006, Abdullah abriu um processo contra o cantor, alegando que havia gasto quantias enormes com ele - do aluguel de uma mansão palaciana à compra de loções para o corpo e de uma Ferrari - na expectativa de que Michael gravasse um álbum de músicas que havia composto. Jackson voou para a Irlanda, onde continuou trabalhando em músicas.
22 de junho de 2010
Especial Michael Jackson @ Parte 2
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22 de junho de 2010















